Quadros Vermelhos e Compassos Sombrios
Quando a pintura e a música encontram um mestre
Todos os direitos reservados à Daniel Constantini
Neil olhava para o espelho do banheiro tentando encontrar alguém que lhe pudesse salvar. Alguém que lhe pudesse resgatar desse grande medo e dessa insana sensação de ausência, da angústia de ser aquilo que era. Dentro do seu coração clamava pela perda de sua alma. Em seu peito estava gritando por ajuda. Queria que tudo isso parasse. Ninguém respondeu. Suspirou e continuou com seu trabalho.
Desde pequeno tomou gosto pela morte. Sentia que existia algo de belo nisso tudo. A sensação de perda do outro, o desespero da vítima, a cor rubra e o aspecto espesso e viscoso do sangue, tudo isso tinha uma beleza inigualável. Assim como um pintor aguçando suas habilidades, Neil cresceu elaborando sua própria arte. Sempre recordou com nostalgia, e um pouco de tristeza, seu primeiro trabalho. Treinou anos com os animais e flores mortas, anos pedindo licença para construir habilidades que lhe pudessem confiar o verdadeiro ofício de um artista.
Seu primeiro quadro foi pintado aos doze anos, no quarto de seu irmão. Tomou nas mãos o estilete da escola e apontou todos seus lápis aquareláveis entregando-os com carinho para que seu irmão usasse sem moderação. Questionou-se durante o tempo todo se estava pronto para isso. Para sorte sarcástica de todos, Neil tinha um amigo imaginário, dizia ser um anjo, um confidente que soprava em seus ouvidos o som da tentação. Enquanto seus olhos tremiam dizendo não, seu anjo lhe dizia sim, o incentivava a continuar sua pintura: Um dia será um mestre! Um pintor precisava começar de algum lugar. Essa discussão entre seu amigo anjo e seus demônios internos que pediam para ele não começar demorou o tempo certo. Seu irmão acabava de terminar o desenho pueril com sorriso nos lábios. Seus pais de mãos dadas, sorridentes, segurando a mão dos filhos ao lado de uma casa feita com meia dúzia de retas. Foi o tempo do irmão de Neil dizer “terminei”. O anjo mal vitorioso sorriu. E Neil iniciou sua obra.
Neil começou cedo. O estilete acariciou a garganta do irmão num corte preciso. As pontas dos dedos apertavam a navalha. Se o seu sangue escorria de suas mãos num filete calmo como um riacho doce. O sangue do irmão vertia tal como uma cachoeira do pescoço. A segunda pincelada foi precisa, desenhava perfeitamente duas retas no estômago. Pela primeira vez sentiu o sabor dos olhos em agonia, do suspiro dos desesperados. O acabamento foi o risco perfeito das linhas nas costas do irmão. Tudo foi rápido, perfeito e sem falhas. Usou a ponta dos dedos cortados para finalizar sua pintura no quarto. Sangue do seu sangue. Então Neil suspirou. Eu terminei. E terminou mesmo. A primeira obra sombria de uma criança mal interpretada. O amigo anjo sorriu e desapareceu, havia completado sua missão. O pequeno Neil terminou sem piedade anos a fio dentro de um hospital psiquiátrico, foi esquecido por todos, ficou no hospital até a morte misteriosa de seus pais num acidente de trânsito.
A arte não poupou Neil. Viveu uma vida de dissabores, arrogância, perdas e violações. Até fugir do hospital e entender o quanto era inteligente. Então conseguiu se virar, além do poço, Neil também pode conhecer a ostentação, o desperdício e o status. Cresceu de um jeito deturpado, maluco. Cresceu mal, mas cresceu perfeito. Ele se sentia perfeito. Assim como o Arcanjo mais belo se sentia completo, Neil sentia algo semelhante. Era belo. Ele tinha certeza disso. Como Lúcifer tinha certeza de seu dom.
Em poucos anos mudou da pintura para a música e no auge de seus 38 anos tornou-se um maestro perfeito, um compositor de valsas sob a lua cheia. Tornou-se o regente negro da mais bela e escura sinfonia de lâminas. Aos 19 anos, completo e perfeito em sua própria maldição, o submundo o queria, todos os excluídos o queriam. Era o melhor dentre tantos outros. Era o perfeito, o mais rápido e o mais silencioso em seu próprio caos.
A arte de Neil expandiu rapidamente e ele tornou-se o mestre dos movimentos finais. Conforme os anos passavam, ficava mais belo, mais intenso e repleto de manias. Gostava de tudo limpo e bem organizado. Apreciava a boa educação, os bons livros e a boa música. Começou a colecionar vinhos caros e a colecionar suas próprias garrafas. Ficou rico, poderoso, mas completamente solitário. Vivia sozinho, seguindo ordens de uma organização que o deixava fazer o que quisesse, desde que fizesse o que eles pediam muito bem. E lá dentro, fez nome, renome e continuou o mestre de si mesmo.
No clima da manhã, Neil degustava um tinto suave argentino quando teve um súbito prazer em redescobrir uma nova mania, queria colecionar algo novo, garrafas de vinho. Mas, não era vinho que ele queria nos rótulos mais delicados e requintados, ele queria algo mais saboroso, viscoso, que fosse seu troféu. Então iniciou sua mais nova coleção. À noite o homem enchia as garrafas de vinho de sua adega com algo mais saboroso do que o vinho, algo mais delicado. Para ele, o novo produto que se resguardava dentro das novas garrafas era uma iguaria magnífica. A tinta dos sobreviventes. Ou então, a vida dos amaldiçoados.
Uma noite ele recebeu uma ligação: Dólares em sua conta, um lindo terno e um trabalho a fazer. Arrumou-se num ritual calmo e cheio de movimentos, como um maestro regente de uma sinfonia infernal. Seus lábios sopravam uma melodia de Liszt enquanto se perfumava com uma fragrância de uvas, um malbec suave. Foi nesse momento que ele decidiu mudar de profissão. Não queria ser mais pintor, queria ser maestro. Então seu novo trabalho foi sua primeira sinfonia.
Como a sombra líquida de uma presença duvidosa, Neil, com seu traje de gala, chega ao seu destino e suspira livremente. Entrou no banheiro do saguão e se olhou no espelho. Ajude-me. Algo dentro do seu coração pedia para parar. Você precisa parar!. Ele pedia ajuda para si mesmo, ou para o universo. Todas as vezes que começava seu trabalho na escuridão, ele pedia desesperado pela luz: ME PARE! ME AJUDE!. Nunca foi ouvido. Sua falsa liberdade mascarada num cárcere psicótico entre ser e querer.
O relógio de ouro do pulso marcava a hora exata. O trabalho começou. Do banheiro para o salão.
Enquanto Neil passava pela sala de jantar, agora ele não precisava mais ser limpo, ele precisava ser sublime. Seu alvo: Todos do salão de jantar comemoravam o aniversário de um Secretário de Estado Americano que estava em visita no consulado do Brasil. Ele não sabe o nome do contratante, apenas que era um gringo. Sabia somente a organização contratada: Black Letter. A única organização que Neil respeitava e trabalhava. A arma utilizada era algo parecido com uma batuta e atravessava as veias e rasgava a carne. Imaginou estar no meio de uma valsa de Strauss e caminhou com leveza. Seus pés seguiram um ritmo doce e gentil enquanto suas mãos e a lâmina percorriam as gargantas dos convidados estrangeiros. Seu terno tingia-se de vermelho e os gritos de agonia somavam-se com a valsa de Strauss em sua mente. Todos os membros da comitiva estrangeira de políticos reunidos no salão de festas afastado da embaixada foram destruídos em minutos. Os guarda-costas pareciam ratinhos de laboratório perto de um tigre de bengala ensandecido. Ninguém conseguiu levantar um dedo contra Neil. Nem os militares treinados, nem CIA, nem FBI, mesmo o mais velho diretos da segurança da comitiva, que se dizia mais esperto e mais inteligente, conseguiu fazer alguma coisa. Então faltou o Secretário e sua filha. Quando o velho percebeu o primeiro feixe de sangue se esvair da sua filha, nem teve tempo de responder, sua garganta estava cortada com uma destreza sem igual. A batuta de fio de diamante passou desenhando um corte perfeito fatiando a carne e cada veia, tocando o pomo de adão o dividindo em partes iguais. A valsa supostamente terminava com uma reverência. Ninguém aplaudiu. Estavam “dormindo”.
O Secretário americano estava morto junto com toda sua comitiva e sua família. Mas alguém estava respirando ainda. Alguém ainda vislumbrava o urgir do tempo. Os olhos da sobrevivente tremiam, estava em choque.
Sobrou no salão vermelho apenas Daiane, a linda sobrinha do Secretário. Foi deixada para trás de propósito, a primeira parte do rito de Neil era o choque para destruir a mente. E a valsa perfeita criaria esse impacto. Completo. A canção noturna havia terminado e Daiane estava com sua mente estilhaçada. Neil tinha uma tara por mulheres ruivas. E a cereja do bolo eram seus olhos. Daiane tinha olhos como oceanos esparramados no céu. Neil a contemplava. É um prazer inigualável a sensação de ver alguém que transbordava o medo nos poros. Ficou perplexo por Daiane, prometeu que ela teria um fim diferente dos demais, seria sua primeira obra prima.
Imaginou então em sua mente a grande composição de Tchaikovsky, A Bela Adormecida e seus lábios murmuravam a composição. No prólogo, Neil dançava ao ritmo do Batizado e cortava os tendões do calcanhar da garota. O sangue jorrava e a jovem gritava em desespero. No primeiro ato bailou no ritmo do Feitiço e um corte perfeito na virilha verteu mais sangue, mais gritos. No segundo ato, ao ritmo da Visão, ele fez um corte horizontal e a caneta lambeu os olhos azuis da garota fatiando as pálpebras e o globo ocular. Mais agonia, mais desespero. E no terceiro e último ato, Neil se jogou em cima da garota que estava agonizando com a mente obliterada. O sangue de Daiane umedeceu suas pernas e cobria seu corpo. Ele então a beija com vontade, finalizando o último ato de Tchaikovsky, o Casamento. Com uma estocada no ventre da garota, Neil sentiu o prazer da finalização. O gozo. Sangue lavava as mãos do maestro. E assim, Neil findou a última vida de uma comitiva inteira de estrangeiros e levou para o inferno de William Blake a sua própria musa.
O maestro, agora exausto, levantou-se e limpou sua batuta, que estava afiada como uma espada, no terno do secretário. Lambeu os dedos molhados de sangue, que já não tinham mais digitais, e partiu sorrateiramente assobiando a nona sinfonia de Beethoven num Ode to Joy afinado e perfeito. Saiu pelos fundos, sem testemunhas, sem câmeras, saiu como se fosse um convidado daquele salão misturados com outros convidados que estavam chegando para outras solenidades. Levou quase 1 hora até descobrirem os corpos silenciosos no salão. No mesmo dia, havia sido divulgada a participação do secretário em atos ilícitos de estupros coletivos e pedofília com provas contundentes para a incriminação do Secretário. Por isso, a morte dele demorou para ser anunciada, como uma morte de mal súbito e depois uma batida de carro onde sua filha também estava. Esconderam o assassinato.
Trabalho cumprido. Obra tocada.
Mais uma obra de arte, uma pintura em tamanho natural do que era capaz de fazer. Eu sou o melhor, pensou Neil em prantos.
Para o maestro, essa sinfonia era sua vida, seu compasso. Para o pintor, esses quadros eram seu destino. E desde então ninguém ousou cruzar os passos livres de Neil. Na verdade, quem na realidade era Neil? Quem era o maestro, quem era o pintor? Quem era o homem e quem era o monstro?
Me admira estar vivo aquele que ousou questioná-lo. E hoje ele continua solto, fazendo seu trabalho, suas obras. Até que alguém o pare.
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